26 janeiro 2009

Páginas Brancas 2008
- Ainda há esperança para a Escola do Porto


Páginas Brancas
Trata-se de uma publicação recuperada pela Associação de Estudantes da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (AEFAUP), que visa prestar homenagem aos ditos "mestres" da Arquitectura que foram fazendo parte da história da Escola do Porto.
Neste contexto, foram também realizadas duas conferências que procuraram "relançar a discussão sobre a denominada Escola do Porto".
E é a todo este movimento, mais do que ao livro, que me referirei como Páginas Brancas.




A Escola do Porto
CRÍTICA PEDAGÓGICA
19.Janeiro.2009

Começando por algumas considerações acerca das diferenças entre Escola do Porto [primeira
edição das Páginas Brancas; a escola enquanto referência], (Escola do Porto) [segunda edição; fechamento da escola sobre si própria, segundo um "aviso" de Álvaro Siza] e "Escola do Porto" [esta edição; de novo a escola como referência, mas num sentido mais livre, mais amplo], o arquitecto Nuno Grande iniciou a discussão entre os convidados.
Da conversa gerada destaco, quase em tópicos:


- a intervenção do arquitecto Alexandre Alves Costa, da "velha-guarda", que nos falou sobre as várias lutas históricas da FAUP, nomeadamente por aquela que considera ser a principal característica da Faculdade: a autonomia pedagógica. No entanto não pude deixar de reparar na resposta à pergunta do público "Bolonha: positivo ou negativo?". Segundo Alves Costa, a Faculdade já aplicava os princípios pedagógicos defendidos por Bolonha, muito antes deste processo. Então, pergunto eu, porquê tanta resistência à passagem "oficial" a Bolonha?

- os alertas do ex-aluno e actual docente da FAUP, Camilo Rebelo, sobre a atitude pedagógica da Faculdade: "a escola ganhava em sair do quadrado face ao desenho", salientando que o desenho é importante, mas que tem uma dimensão que ultrapassa a sua concepção clássica, tendo hoje por base os novos meios/suportes auxiliares ao desenho, nomeadamente o desenho assistido por computador (CAD).
Mostrou também uma assumida vontade de "contaminar a escola", revertendo cada um para ela as suas experiências e dinâmicas pessoais, factor que ajudaria a renovar as instituições - no caso, a FAUP - não impedindo a permanência das figuras importantes das suas Histórias.

Porém, se antes "havia tempo para tudo" (Manuel Maria Reis), hoje, nas palavras de Camilo Rebelo, "é tudo muito mais sério", afirmação apoiada pelo depoimento de um aluno do 4º ano, Jorge Hall, que manifestou a necessidade de toda uma classe de "ter tempo para viver para além da Arquitecura". Estamos contigo, Jorge!

A Escola do Porto
PRÁTICA DISCIPLINAR
22.Janeiro.2009

Desta sessão, começo por dar relevo à participação do Arquitecto Pedro Gadanho, que fez muito mais do que moderar o debate. Desta vez mesmo em tópicos:

- necessidade de "diversificação da ideia de prática da arquitectura [face à qual acusa a FAUP de possuir uma "visão monocórdica"], dentro e fora do mundo académico"; a Arquitectura hoje aproxima-se mesmo da performance artística, passando por mundos como os da produção teórica/de investigação/cultural;

- questiona a capacidade da FAUP de, enquanto escola, dita, de excelência, preparar os seus estudantes para um futuro diversificado e cada vez menos "tradicional", salientando também a demanda de "trazer a experiência de fora para dentro" e não apenas o contrário

- sobre a predominância da disciplina de Projecto: "Faz sentido apostar tudo num só cavalo, mesmo que ele seja de raça?"

- urgência de "reecontrar a lógica de excelência"


Gonçalo Furtado, docente de Teoria do 2º ano, manifesta pouca preocupação. "A responsabilidade é individual" é a frase mais sonante do seu discurso, onde também falou sobre a coragem que montar uma "rede de diferentes conhecimentos, de know-how" requer.


Álvaro Domingues, geógrafo, por sua vez, e com o distanciamento que não ser arquitecto lhe permite, pensa que "o arquitecto já não é o herói" e revela a importância da formação extra-curso, à qual a FAUP poderia, diz, associar-se, sem perder a sua identidade.


Já de Francisco Barata, do Conselho Directivo da FAUP, apenas me ficou a afirmação de que "sempre foi assim", frase que possibilita uma leitura um tanto conformista, que, confesso, me provoca sempre algum desconforto. Garante, porém, que "a FAUP está atenta à realidade". Vamos ficar, nós, atentos também.


Por fim foi novamente vez da classe discente se manifestar, desta vez sob a eloquência de Pedro Bragança que, caracterizando a escola de "bastante fechada", questionou sobretudo a designação de "Escola do Porto":
"Escola sim. Mas do Porto?", uma vez que a relação da Faculdade com a cidade se fica por pouco mais de estar lá sediada, não havendo, de um lado, uma postura interventiva e, do outro, uma capacidade de "absorver" aquilo que lá se faz.


Posto isto, termino as minhas Páginas Brancas com uma maior sensação de leveza do que as comecei. Ainda há esperança para a Escola do Porto.
Só para fechar, citando mais uma vez Alexandre Alves Costa:

"O ESSENCIAL É QUE A ESCOLA SE MANTENHA COMO ESPAÇO DE LIBERDADE."

Temos dito.

3 comentários:

Anónimo disse...

Uma vez presenciei uma entrevista na RTP2 (Câmara Clara?) com o Arqº Souto Moura, creio, no estádio de Braga, se bem me lembro, em que, a determinada altura ele lembrava as aulas do Arqº Távora, junto a um mosteiro da zona de Braga de que não lembro o nome - que está há décadas em recuperação -, ou num outro qualquer sítio ao ar livre, junto de um exemplo "vivo" (passe a expressão) de arquitectura.
E lembrava também os desafios lançados para "sentir" a cor de um muro...imaginar o azul, ou o verde...
E como isso tinha sido de extrema importância para a sua formação em ARQUITECTURA.
A Escola pode SÓ estar no Porto, mas SER à mesma do Porto, porque é a EXPRESSÃO de ALGO construído ali que é diferente do de outros sítios.
E não deve esquecer-se que seja ela o que for, essa Escola, para ser ESCOLA, tem de ser mais (MUITO MAIS) que um simples carimbo.
Será muito mais rica se conseguir ser ALGO que não possa ser CLASSIFICÁVEL (como, por exemplo: neo-neo-pos-modernista, ou superCADiana), talvez por EXPRESSAR e fazer SENTIR bem-estar, beleza, equilíbrio, contemporaneidade (e lembro-me do Dali - ou seria o Picasso?, pouco importa - "NÃO SE ESFORCEM POR SER CONTEMPORÂNEOS. NÃO CONSEGUIRÃO EVITÁ-LO!).
Um abraço do Zé do Boné

joana. disse...

ó. bendito post.

tenho um convite para ti.

aparece na Torre H 3.1 um dia destes. (se eu não estiver lá, é porque foste na ora errada :p )

joana. disse...

*hora